01/12/2009

História de uma serenata



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Texto e apresentação: José Carlos Christofoletti.



José Carlos Christofoletti é engenheiro agrônomo, já aposentado, mas ainda continua trabalhando um pouco, prestando consultoria técnica. Reside atualmente em Sorocaba e trabalha em São Paulo.

No texto abaixo José Carlos Christofoletti escreve algumas palavras sobre sua trajetória.
Quando estava estudando, ainda no primeiro científico (1958), comecei a trabalhar na Rádio Clube de Rio Claro, então PRF-2, bem como prestava colaboração ao Jornal Cidade de Rio Claro, na parte esportiva. Assim, eu conheci uma das pessoas mais brilhantes do jornalismo da época, Ribeiro Mancuso, com quem aprendi as maiores e melhores lições de ética jornalística, conceitos que me valeram muito durante toda a minha vida particular e profissional.
Depois que fui estudar em Piracicaba (1962 a 1966), onde me formei em agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, praticamente fiquei afastado do rádio, entretanto, sempre que havia uma oportunidade, tentava algum trabalho nesse setor. Aqui em Sorocaba, onde resido desde 1981, fiz um programa na Radio Cruzeiro do Sul FM, nos anos de 1998 e 1999. Ainda tenho vontade de voltar a trabalhar em rádio, algum dia.
Gosto muito de música, principalmente a brasileira; ouço também música clássica, para os momentos de calma.
Ainda venho freqüentemente a Rio Claro.
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A SERENATA DOS MELHORES É COM PIANO.
CRÔNICA DE RIBEIRO MANCUSO PUBLICADA EM 07 DE FEVEREIRO DE 1965.

De sábado para domingo houve uma serenata na cidade. Houve bons cantores da ala respeitável de canções bonitas.
Os depredadores do silêncio estiveram de folga.
Porque a serenata moderna, se é assim que devem ser classificadas as arruaças com acompanhamento de violão e arrebentamentos de garrafa, esta espécie de serenata deve cansar. Porque há de se notar que o violonista se curva sobre o violão e fica dando passinhos em volta de si próprio à semelhança de pagé, enquanto a turma se requebra cantando o ritmo de um ‘tróço’ a que chamavam de música moderna. Talvez as mocinhas modernas que ouvem essa bagunça, também se ponham a requebrar sob as cobertas. É possível.
Não! Essa coisa horrível não aconteceu sábado último.
Ocorreu uma apresentação diferente dentro da noite. Carregaram um piano pelas ruas da cidade. A chuva caia e o piano desafiava o tempo enquanto o pianista persistia no manejo do teclado, procurando produzir melodias bonitas para enlevo das moças escolhidas que dormiam.
Por outro lado, uma serenata bonita foi prejudicada pela chuva da madrugada. Era um violão sonoro e cantores escolhidos que acariciavam a tranqüilidade noturna, pelos acordes da música simétrica e pelo canto rico de poesia. Seresteiros que cuidam dos próprios passos para que não haja outro ruído na noite quieta, senão a música que ornamenta o silêncio.
A serenata foi feita para os românticos, como a noite foi feita para o descanso, como a música foi feita para enlevar o espírito, como a poesia foi feita para interpretar a alma. A serenata foi feita para as canções bonitas cantadas com o respeito que a noite profunda exige.
Talvez interpretassem sermos nós contrários à serenata por termos deplorado os fandangos dos fedelhos que bancam pagé arrebentando cordas de violão, como se fossem enxadas velhas batidas pelo martelo, enquanto os cantores que se requebram berrando os “tróços” desafinados e quebrando garrafas no chão. Isso é o que tem havido, como assalto à tranqüilidade do próximo. E isso não é serenata. É bagunça.
Muito melhor o piano carregado pelo caminhão.
Mas, serenata mesmo exige cantor, violão suave, exige a voz harmonizada com a beleza da vida. E nenhum ruído além da canção.
Os plays boys descansaram sábado. Por isso os melhores fizeram serenata. Violão nas mãos de plays boys viciados em bolinhas e cachaça, devia ser arma proibida, a fim de que serenatas não ficassem desmoralizadas.
A serenata não aborreceu ninguém porque foi feita por gente boa.
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Rio Claro, terra de seresteiros

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