27/11/2009

Gabriela Buarque

Postagem autorizada por Gabriela Buarque


Foto Elisa Gaivota
Nasce uma cantora de época

Certamente o Rio seria alguma cidade submersa se não escafandrasse da escuridão oceânica do lugar a luz de um respiradouro fundamental cujo nome é Gabriela Buarque.
O Tempo e o acaso se esqueceram de eclodir nos auto-falantes dos radinhos de madeira uma voz característica dos anos 30, conservada em compota com mel do néctar retirado de flores Billie Holiday e colocado na prateleira mais alta do Café Nice.
Orlando Silva esteve com o vidro nas mãos, mas devido à pressa para uma nova gravação na RCA Victor que faria história, ficou de buscá-lo mais tarde. O que não aconteceu.
A temperatura das mãos de Orlando; seus olhos vidrados no vidro; o perfume diário do café impregnando o ambiente através das palavras dos compositores; um choro do Jacob muito dolente; a voz grave e generosa de Caymmi arrebatada pelo último desejo de uma voz feminina que ouvira na Mayrink Veiga; a fumaça dos charutos tabaquiando cada centímetro da atmosfera; o chapéu de Pixinguinha; um ruído de bonde parando na Avenida Central; o pão com manteiga de Ismael; um assovio de cordas de Radamés; o bouquet da cerveja Cascatinha aliviando a “tripla” parceria de Cartola e Noel; e o aparelho sintonizado o dia inteiro no auditório da Rádio Nacional liberava o frescor dos grandes astros no ar. Com todos esses ingredientes, o sabor e o timbre do produto foram alterados, mantendo entretanto a pureza celestial e a conservação do mel original, feito um licoroso vinho do Porto que brota das videiras cansadas penduradas em fados nas umidecidas terras íngremes das margens do rio Douro e, depois de pisadas as uvas, fermentadas nos barris de carvalho, engarrafadas e guardadas nas caves dos templos sagrados da boemia, quem dá as cartas é o Tempo.
Com o advento da Bossa Nova e o fervilhamento de pessoas nas Lojas Murray em busca daquela nova batida de violão nas bolachas lustrosas de 78 rpm, o pote ficou ainda mais empoeirado (o que não vedou a penetração daquele mundo dissonante que tentamos inventar, pois o rádio sempre esteve ligado).
Na década seguinte, ninguém pensaria em comprar mel, já que as vozes muito mais eletrizantes, eletrificavam e reinavam nas monárquicas jovens tardes de domingo e na vanguarda antropofágica dos acordes joãogilbertianos que a poesia concreta e o modernismo puseram no liquidificador das guitarras elétricas. Toda essa revolução atravessava os minúsculos grãos de areia que envolviam o suco das colmeias, e quase rachava quando anunciaram o 2° lugar para Geraldo Vandré no III Festival internacional da canção de 68.
O violão de João Bosco, o canto de Clementina, o inimitável Paulo Sérgio, o batuque do Candomblé, o Guarani na Hora do Brasil e o patrão nosso de cada dia foram aumentando a temperatura do recipiente.
Ainda na mesma freqüência, a geração coca-cola é a trilha sonora do momento no país.
Mas naquela data em especial, a Nacional atravessava a fina treliça marrom do radinho tocando uma valsa que Orlando gravou no dia em que esteve com o mel nas mãos. “Rosa” embala um acidente que daria novos rumos à História da Música Popular Brasileira: o vidro lacrado que guardara aquele óleo sagrado das abelhas durante quase cem anos cai lambuzando todo o chão do Café Nice. O vidro se estilhaça no dia 25 de maio de 1983 exalando um dos olores mais raros e comoventes que o bar jamais respirou.
E exatamente 71 anos depois da Rádio Nacional entrar no ar, em setembro de 1936, uma voz “de época” singulariza-se ímpar perante as outras do século XXI. A mesma rádio, o mesmo auditório, apresentam uma nova cantora que interpreta um tema que ela conhecera pelo próprio Garôto na doçura daquele seu mundo antigo. Chico e Vinícius escreveram a letra de “Gente humilde”, que em dezembro de 2007 recebeu a medida exata da emoção para cada sílaba tirada do envelope de carta feito seda e ganhou os ares do Brasil causando inquietação e uma sensação de saudosismo anacrônico.
Gabriela é a fotografia da cantora e compositora fora de seu tempo, porque traz o timbre doce do passado fincado e arraigado na alma. Mas ela não vive no passado, o passado vive nela. O Tempo dela é hoje. E é atemporal por saber usar o canto de maneira tão moderna, e educadamente suave.
Desidrata quem o ouve pelos olhos.
Rafael Garcia
São Gonçalo, dezembro de 2007

Gabriela com Herminio
"Fui ver e ouvir Gabriela Buarque, Gabizinha querida, minha ex-aluna lá na Oficina de Coisas da Escola Portátil. Canta bonito e, o que é melhor, canta com inteligência. Repertório ótimo, roteiro enxutíssimo, acompanhante da maior categoria. Enfim, um recital pra se rever e aplaudir de pé e pedir bis."  Herminio Bello de Carvalho




Músicas acima:
FOTOGRAFIA (Tom Jobim)
voz - Gabriela Buarque
violão - Miguel Martins
baixo - Rodrigo Ferreira
bateria - Helbe Machado

INQUIETAÇÃO (Ary Barroso)
voz - Gabriela Buarque
bandolim e arranjo - Luís Barcellos
pandeiro e percussão - Daniel Karin
violão de 6 - Lúcio Rodrigues

BÊNÇÃO, NANÃ! (letra e música: Gabriela Buarque)
voz - Gabriela Buarque
guitarra e violão - Miguel Martins
baixo - Rodrigo Ferreira
bateria e percussão - Helbe Machado

PROSA EM LÁ (música: Kalu Coelho/ letra: Gabriela Buarque)
voz - Gabriela Buarque
violão de 6 - Kalu Coelho
flauta - Ana Carolina D'Ávila
violão de 7 - Miguel Martins

Foto Elisa Gaivota

Show de Gabriela Buarque no Cinemathèque, em Botafogo, dia 13 de novembro de 2008.

Acima: Áudio do programa "Ao vivo entre amigos" da Rádio MEC FM 98,8

Foto Elisa Gaivota

Gabriela tem um trabalho recente de poemas, contos e crônicas que posta no blog:
Recomendo a todos


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