27/10/2009

Luisa Amaro

Publicação autorizada por Luisa Amaro
Luísa Amaro estudou Guitarra Clássica no Conservatório Nacional de Lisboa com o Professor Lopes e Silva e prosseguiu os seus estudos em Barcelona, em 1983, com a guitarrista argentina Maria Luisa Anido. No ano seguinte começa a tocar com Mestre Carlos Paredes (1925-2004), que acompanha em guitarra clássica em centenas de concertos por todo o mundo, interrompendo essa actividade em Dezembro de 1993. Paralelamente, em 1989 frequenta o Curso Internacional de Guitarra em Castres (França), com o guitarrista argentino Roberto Aussel. Desde 1996 que Luísa Amaro se dedica à guitarra portuguesa como compositora. Da sua busca incessante de novas envolvências tímbricas e de um reportório diferente para um instrumento carregado de tradição simbólica, nasceu em 2006 o projecto In-Canto, desafiando a guitarra portuguesa para outros pulsares e ritmos. Dos inúmeros concertos realizados em todo o País, e para além das dezenas de espectáculos com a apresentação do trabalho “Canção para Carlos Paredes”, de 2004, destacam-se: espectáculo com a Orquestra Académica do Porto, sob direcção do maestro António Saiote (2001); música para “Devaneios Flutuantes”, bailado de Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes (2001-2002); concerto de Jubileu do Cardeal Patriarca de Lisboa (2003); concerto no Círculo Eça de Queiroz (2005); participação no Festival de Lisboa e no Festival MED de Loulé e concerto inaugural do Festival Islâmico de Mértola (2007).
No timbre da guitarra portuguesa encarnou-se um estranho destino: desaparecida do resto da Europa, sobreviveu com orgulhosa tenacidade em terra lusitana até identificar as cordas mais íntimas e as vibrações mais subtis. A sua voz – porque de uma voz se trata – toca o coração desde a primeira nota; as suas ressonâncias colocam em movimento sentimentos que pareciam esquecidos; nela afloram emoções que as palavras não conseguem descrever. Há qualquer coisa de antigo e de nobre no timbre deste instrumento, que tem aparentemente origens humildes e que encontrou no fado o seu habitat ideal.
Mas a guitarra portuguesa, se é a essência do fado, vive para além dele. Demonstraram-no músicos que souberam exaltar o seu extraordinário potencial expressivo, revelando um universo sonoro original e fascinante. Luísa Amaro está entre eles. Crescida artisticamente com Carlos Paredes, assimilou um ilimitado interesse pelo som como exercício criativo de exploração do mundo. Com grande sensibilidade e extrema delicadeza construiu um diálogo íntimo com as culturas musicais do Próximo Oriente. Percebeu a respiração das suas dimensões universais, desafiando-lhe a matéria sonora e interpretando-lhe a sua essência através de um trabalho de tradução elaborado sobre uma trama tímbrica extremamente sóbria.
A personalidade única da guitarra portuguesa é colocada em evidência pela elegante e discreta presença do clarinete e da percussão, com a cumplicidade de um segundo instrumento de cordas, o guitolão, que é a sua natural extensão. Este instrumento, construído ex-novo por Gilberto Grácio, é fruto da imaginação de Carlos Paredes, que desejava ampliar o registo da guitarra portuguesa para se aventurar além dos limites objectivos impostos pela sua estrutura.
Esta subtil e constante inquietude, tão intrínseca e requintadamente lusitana, reflecte-se no trabalho de Luísa Amaro através da evocação de um Portugal mourisco, como expressão de uma insinuante nostalgia. Qualquer coisa de longínquo no espaço e no tempo, e ao mesmo tempo tão próximo de se tornar motivo de efabulação sonora. Se a saudade fosse som, teria a voz do seu instrumento.
(Paolo Scarnecchia)
Luísa Amaro, a primeira mulher a gravar em guitarra portuguesa, editou, em 2004, o CD Canção para Carlos Paredes, iniciando assim um percurso corajoso de uma mulher enamorada por um instrumento até então masculino.
Canção para Carlos Paredes
(Artemágica/2004/Portugal)
Luisa Amaro(guitarra portuguesa)
Miguel Carvalhinho(guitarra clássica)
Composições: arlos Paredes: 2, 3, 4, 8, 10, 11
Luisa Amaro: 1, 5 ,7, 9
Afonso Correia Leite/Armando Rodrigues: 6












MEDITERRÂNEOS
Luisa Amaro (Guitarra Portuguesa), António Eustáquio (Guitolão), Gonçalo Lopes (Clarinetes), Baltazar Molina (Percussão do Oriente)-Participa também desse CD Máio Laginha (Piano em Meditherranios)
Este CD reúne nove composições da autoria de Luísa Amaro, oito das quais são interpretadas pela compositora à guitarra portuguesa, acompanhada por um guitolão, clarinete alto e baixo e vários instrumentos de percussão do Médio Oriente. Uma das composições conta igualmente com a colaboração do pianista Mário Laginha. O primeiro trabalho de Luísa Amaro enquanto solista e compositora, as obras que constam deste CD revelam uma grande maturidade artística e interpretativa.  A música evoca o imaginário de um Mediterrâneo onde múltiplas influências se cruzam e onde o passado de convivência de diversas culturas e religiões inspira esperança num futuro em dialogo. Aliás os cruzamentos e diálogos musicais atravessam todas as composições que constam do CD.  Cruzam-se e dialogam o lirismo da canção de Coimbra e da guitarra coimbrã, enquanto instrumento acompanhador e solista, o legado de Carlos Paredes que a compositora acompanhou durante muitos  anos. Estão também bem presentes a criatividade e subtileza dos percursos melódicos e rítmicos, da ornamentação e da abordagem à improvisação no alaúde Árabe, características da música erudita do Médio Oriente.  A inspiração na música do Médio Oriente está patente em várias composições. Destacam-se Kalipha (faixa 4) e Mouriscas (faixa 8).  A primeira cuja estrutura assemelha-se a da waslah (um sequência de composições instrumentais e vocais, alternadas com improvisação), inicia-se com uma introdução que evoca o taqsim (improvisação instrumental) no alaúde; seguem-se várias secções melódicas alternadas com improvisação. A segunda, começa com um padrão rítmico executado pelo daff (tambor de caixilho) e é constituída por improvisações modeladas no taqsim. Assinala-se igualmente Mediterrâneos (faixa 7), uma composição que conta com a colaboração de Mário Laginha que enriquece a obra da compositora com novas ideias musicais e texturas sonoras.
As obras que constam do CD são interpretadas com lirismo, subtileza e grande expressividade.  A guitarra e os instrumentos que a acompanham estão em perfeita sintonia, produzindo uma textura sonora de grande clareza e onde os vários timbres se complementam. Assinala-se o domínio técnico da guitarra de Luísa Amaro que é inteiramente colocado ao serviço da expressividade.
Uma das raras guitarristas e compositoras femininas, Luísa Amaro está de parabéns por este trabalho que de certo contribuirá para uma visão mais ampla dos Mediterrâneos.
(Salwa El-Shawan Castelo-Branco)
Composições de Luisa Amaro






















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